NÃO HÁ AMOR NO HÁBITO - Por Jiddu Krishnamurti

Casamento como hábito, como cultivo de prazer habitual, é fator de deterioração, porque não há amor no hábito. É apenas para aqueles poucos que verdadeiramente amam que o relacionamento conjugal tem importância, torna-se indissolúvel, porque não é simples hábito ou conveniência, nem tem como base necessidade biológica, sexual. Nesse amor, que é incondicional, as identidades se fundem, nele há cura e esperança. Mas, para a maioria das pessoas, o relacionamento conjugal não é uma fusão. Para que haja a fusão das identidades separadas, é preciso que o homem e a mulher conheçam a si mesmos. Isso é amar. Do contrário, não há amor, e esse é um fato óbvio. O amor é viçoso, sempre novo, não é mera satisfação, nem simples hábito. É incondicional. Vocês não tratam assim sua mulher, ou seu marido, não é verdade? Vivem, cada um, em seu isolamento, estabeleceram seus hábitos de prazer sexual assegurado. O que acontece com um homem que tem renda assegurada? Ele deteriora. Já notaram isso? Observem um homem que tem renda assegurada e logo verão que sua mente está definhando rapidamente. Ele pode ter alta posição, uma reputação de homem astuto, mas a verdadeira alegria da vida abandonou-o. De modo semelhante, vocês têm um casamento que lhes dá uma fonte permanente de prazer, um hábito sem entendimento, sem amor, um estado no qual são forçados a viver. Não estou lhes dizendo o que fazer, mas que examinem o problema. É certo um relacionamento assim? Isso não significa que vocês devam se desfazer da esposa e procurar outra mulher. Que sentido tem esse relacionamento? Amar é estar em comunhão com alguém, mas estão vocês em comunhão com suas esposas, a não ser fisicamente? Vocês as conhecem, a não ser fisicamente? Elas os conhecem? Ou estão isolados, cada um atrás de seus próprios interesses, ambições e necessidades, um buscando no outro apenas satisfação, segurança econômica ou psicológica? Tal relacionamento não é relacionamento, é um processo de mútua necessidade psicológica, biológica e econômica, e o resultado é conflito, infelicidade, queixas, medo possessivo, ciúmes e assim por diante. Então, o casamento como hábito, como cultivo de prazer habitual, é fator de deterioração, porque no hábito não há amor. O amor não é habitual, é alegre, criativo, novo. Do livro: O que você está fazendo com a sua vida? - Passagens selecionadas sobre as grandes questões que nos afligem. – Jiddu Krishnamurti. Páginas 238 a 240. Foto: Quando o mar vi